por Luciano Trigo para o G1

Parece difícil acreditar que alguém consiga não apenas passar incólume por tantos traumas como também encontrar energia e inspiração para produzir uma obra cinematográfica internacionalmente reconhecida, que já chega a 18 longas-metragens (desde a estreia, com Faca na Água, em 1962, ainda na Polônia comunista, até O escritor fantasma, em 2010, passando por clássicos como O bebê de Rosemary, A dança dos vampiros e Chinatown). Essa carreira aparentemente ainda não chegou ao fim: Polanski já está envolvido na pre-produção de Carnage, baseado na peça de Yasmina Reza que no Brasil recebeu o título de O Deus da carnificina.
Arrogante e vesso às convenções sociais, promíscuo notório com uma queda incontrolável por lolitas, artista cínico e indiferente à opinião pública, o cineasta polonês – que completa 78 anos no próximo dia 18 – parece ser amado e odiado na mesma medida e tem plena consciência disso.
Em suas memórias, Roman, publicadas em 1984, definiu a si mesmo como um “gnomo devasso e maligno”, e não estava exagerando. Detalhista, com base em mais de 270 entrevistas e numa pesquisa exaustiva, Sandford corrige diversas informações contidas naquele livro e contesta outras, construindo em sua biografia (não-autorizada porém honesta) o retrato de um homem ambíguo, um fugitivo marcado por diferentes exílios e perdas, mas também um artista perfeccionista ao extremo, para quem o cinema é mais importante que a vida real.

Não se espere, tampouco, uma análise crítica de sua obra, embora o livro seja rico em histórias sobre os bastidores de cada produção, sobre os projetos não realizados (incluindo um filme sobre golfinhos assassinos que planejam matar o presidente dos Estados Unidos) e sobre a relação de Polanski com outros cineastas de sua geração – destacando-se aqui a antipatia por Jean-Luc Godard em particular e pela Nouvelle Vague em geral, que o assustavam “por seu amadorismo e por sua técnica pavorosa”. No Festival de Cannes, em 1968, quando os cineastas franceses se mobilizavam em torno de propostas de esquerda, ele declarou: “Truffaut e Godard são como garotos brincando de fingir de revolucionários. Passei dessa fase. Fui criado num país em que essas coisas aconteciam para valer.”
O desafio que o autor se propõe, portanto, é desenrolar, de forma tão precisa e objetiva quanto possível, o novelo confuso, tortuoso e por vezes bizarro em que se transformou desde muito cedo a vida de Polanski. Naturalmente, as minuciosas reconstituições dos dois episódios mais traumáticos da vida do cineasta ocupam boa parte do livro: o assassinato de Sharon Tate e o processo por estupro da menor Samantha Gailey. (Aos percalços vividos na infância, também mapeados com rigor, o próprio Polanski se recusou a atribuir qualquer importância: “As crianças aceitam a vida como ela é. As dificuldades por que passei me pareciam normais.”)

Enquanto isso, um marginal chamado Charles Manson reunia dezenas de jovens desmiolados em torno de ideias malucas e muitas drogas, criando uma espécie de seita cujo lema, “Helter Skelter”, era tirado de uma canção dos Beatles. Sandford é convincente ao desvincular o assassinato de Sharon Tate do filme O bebê de Rosemary - tese bastante difundida na época, atribuindo-se ao casal a prática de bruxaria. Outra versão descartada é a de que o crime foi resultado de uma “festinha devassa” regada a LSD que tinha descambado para a violência. Embora Polanski fosse de fato chegado a drogas e sexo não ortodoxo, ele não teve nenhuma culpa no episódio. A chacina, aliás, é descrita com detalhes escabrosos, que mostram a que ponto pode chegar a patologia social norte-americana, numa das páginas mais negras da cultura americana.

Polanski chegou a passar 42 dias na prisão, acreditando estar cumprindo sua parte num acordo com o juiz designado para o caso. Mas o acordo só existia na sua imaginação. Embora tenha afirmado gostar da experiência do encarceramento, ele não hesitou em fugir para a Europa quando se deu conta de que poderia ficar preso por muito mais tempo do que pensava – a pena, somados os diversos delitos envolvidos (uso de drogas, sexo não-consentido com menor, sodomia etc) podia chegar a 50 anos.
O fato é que Polanski sobreviveu a mais esse golpe e continuou a fazer seus filmes. Em 2002 ganhou o Oscar por O pianista. Está casado desde 1989 com a bela atriz Emanuelle Seigner, que estrelou seus filmes Busca frenética e Lua de fel. Preso em Zurique no ano passado, conseguiu escapar da extradição para os Estados Unidos graças a uma boa fiança e à pressão de diversos intelectuais e cineastas que se mobilizaram em sua defesa.
Christopher Sandford é um biógrafo profissional, que já escreveu livros sobre Mick Jagger, Erc Claptone Kurt Cobain, entre outros. Em Polanski – Uma vida, ele reúne um volume de informações impressionante sobre seu biografado, muito bem articuladas por uma prosa ágil e envolvente. Fica-se sabendo tudo sobre a vida do cineasta, e no entanto algo escapou: o enigma Polanski permanece indecifrado. O eterno fugitivo, mais uma vez, não se deixou capturar – mas esta talvez fosse uma tarefa impossível.
Polanski – Uma vida, de Christopher Sandford. Nova Fronteira, 488 pgs. R$59
FILMOGRAFIA DE ROMAN POLANSKI
- A faca na água (1962)

- Repulsa ao sexo (1965)

- Armadilha do destino (1966)

- A dança dos vampiros (1967)

- O bebê de Rosemary (1968)

- Macbeth (1971)

- Quê? (1973)

- Chinatown (1974)

- O inquilino (1976)

- Tess (1979)

- Piratas (1986)

- Busca frenética (1988)

- Lua de fel (1992)

- A morte e a donzela (1994)

- O último portal (1999)

- O pianista (2002)

- Oliver Twist (2005)

- O escritor fantasma (2010)

Amigo, post fantástico. Vou comprar o livro.
ResponderExcluirO Falcão Maltês